Um olhar além das crises financeiras e a ferramenta de M&A na geração de valor de empresas e fundos de Private Equity

Costumamos lembrar com alguma facilidade das crises financeiras históricas mais agudas, refletidas no mercado financeiro através de desvalorizações muito fortes no valor dos ativos e de aumento significativo na volatilidade dos preços.

Foi assim em 1929, no crash da bolsa de Nova York; em 1987,  quando os mercados chegaram a cair mais de 23% em um dia (a maior queda diária do mercado americano – Black Monday) e em 2008, na famosa crise do subprime.

Nesse último caso, assistimos a grandes bancos e hedge funds caminharem para o buraco. O que poucos costumam lembrar, no entanto, é que o mesmo momento nos permitiu também presenciar o marco do início de uma era gloriosa para os fundos de private equity., indústria que, muito possivelmente, deu seus primeiros passos com JP Morgan adquirindo a Carnegie Steel Company, nos Estados Unidos, ainda em 1901.

O que se sucedeu a partir da crise do subprime foram medidas e comportamentos que permitiram a expansão da indústria de ativos alternativos ilíquidos.

Bancos centrais – em especial, o Federal Reserve (Fed) americano – iniciaram programas de estímulo monetário, conhecidos como Quantitative Easing (QE), focados na recompra de diversos ativos financeiros, como títulos públicos de longo prazo do governo e ativos securitizados. Com tanta liquidez, os juros chegaram a territórios pouco conhecidos até então – ou exclusivos da economia japonesa, com valores nominais negativos.

Não só o comportamento dos juros havia se transformado, mas o clima político se tornou mais amigável – resultado de um intenso processo de globalização entre as nações. A combinação perfeita para o modelo de negócios do setor de private equity estava só saindo do forno. Estabilidade política, liquidez e a busca por maiores retornos transformaram para sempre a indústria, na qual muitos de seus participantes usa como receita a alavancagem e a ferramenta de M&A: em 25 anos, o segmento retornou anualizados 13% enquanto o S&P500 ofereceu apenas 9%, de acordo com a Cambridge Associates LLC [1].

No Brasil, de acordo com a PwC, o primeiro estágio da indústria de private equity durou entre 1994 e os anos 2000, período no qual o segmento se beneficiou do crescimento de uma curva de aprendizado. A segunda fase contou com a estabilidade de preços, juros decrescentes, emergência de uma classe média com renda per capita em ascensão, expansão do crédito e consumo, e um país que passava a atrair o olhar de investidores estrangeiros, em especial após a descoberta do Pré-Sal, em 2006, e o recebimento do investment grade, em 2008, pelas principais agências de classificação de risco [2].

Ainda que tenha, a partir de 2011, entrado em uma rota de baixo crescimento em decorrência de momentos turbulentos no cenário econômico, com a redução do crescimento chinês e a queda nos preços das commodities, o Brasil continuou a ofertar oportunidades de investimento de longo prazo nas mais diversas áreas: infraestrutura (telecomunicações, rodovias, portos, aeroportos),  educação, consumo e saúde e serviços [2].

Dentro desse modelo, a atividade de Fusões e Aquisições (em inglês a sigla M&A, merger and acquisitions) é uma das principais ferramentas, sempre acompanhada de injeção de governança e metodologias de gestão mais eficientes. Em uma linha do tempo de sete a dez anos, tem-se o investimento inicial, aquisições secundárias à estratégia principal (conhecidas como add-ons) e o desinvestimento. Para a “estratégia de saída”, há a possibilidade uma oferta primária de ações na bolsa de valores (IPO – Initial Public Offering) e ou venda/fusão com estratégicos ou outros fundos.

Overview Global e Local

Em termos globais, o ano de 2019 teve um volume total de USD 4 trilhões em transações [3], das quais, aproximadamente, USD 1 trilhão (ou 25%) ocorreram em mercados emergentes, como China, Índia e Arábia Saudita. A presença dos países em desenvolvimento em, aproximadamente, um quarto de todas as transações já era anunciada em meados de 2009 [5] e reafirmada pela BCG (Boston Consulting Group) no ano de 2013 [6]. Em termos de crescimento ano após ano (YOY, year-over-year), Brasil, Malásia e Arábia Saudita se destacaram frente aos dois primeiros países. [4].

O histórico brasileiro no segmento de M&A se mostra relativamente incipiente quando comparado a países com maior crescimento econômico, como é o caso da China, ou desenvolvidos, como Estados Unidos e países europeus. Como já ressaltado, existe uma tendência da indústria de private equity comandar parte dos principais deals, e esta também se mostra relativamente nova.

Apesar disso, o crescimento do segmento com transações de private equity é evidente.

De maneira geral, a atuação se deu nos mais variados setores e, sobretudo, apresentou crescimento anual (CAGR) de 31% no volume das transações, sendo mais da metade com ticket médio de BRL 50 milhões e 34% acima de BRL 100 milhões. Essas compras foram realizadas, em grande parte, via aquisições minoritárias entre 2010 e 2020.

Para os próximos anos, um dry powder de USD 1,5 trilhão (total em caixa) dos fundos de private equity [7, 8], taxa de juros próximas ou iguais a zero, principalmente após a retomada de programas de estímulo às economias norte-americana e europeias, e um cenário de busca por retornos superiores àqueles oferecidos em países desenvolvidos, torna o futuro dos fundos de ativos ilíquidos muito semelhante aquele visto no pós-2008. Assim, bancos como JP Morgan e Morgan Stanley projetam que as atividades de M&A continuarão a serem lideradas pelos add-nos e estratégias de saída dos fundos ao redor mundo.

Para o Brasil, acreditamos na existência de um forte potencial nos seguintes setores: i) educação em nível secundário, ii) infraestrutura, em especial, telecomunicações, iii) saúde em geral – desde operadoras, hospitais até mesmo clinicas especializadas em tratamentos, iv) autopeças – principalmente nos segmentos comercialização. Veja abaixo a distribuição setorial histórica (2010-2020) dos investimentos realizados pelos fundos de private equity [8].

 

Fontes:

[1]https://www.bloomberg.com/news/features/2019-10-03/how-private-equity-works-and-took-over-everything

[2]https://www.pwc.com.br/pt/setores-de-atividade/private-equity/assets/private-equity-brazil-13b.pdf

[3] https://www.jpmorgan.com/jpmpdf/1320748081210.pdf

[4]https://www.mattosfilho.com.br/Documents/fy2019_global_em_ma_legal_review.pdf

[5]https://hbr.org/2009/05/how-emerging-giants-are-rewriting-the-rules-of-ma

[6]https://www.bcg.com/en-br/publications/2013/mergers-acquisitions-alliances-joint-ventures-one-in-four-m-a-deals.aspx

[7]https://www.jpmorgan.com/jpmpdf/1320748081210.pdf

[8]https://www.emis.com/php/dealwatch/deal-database

[9]https://www.morganstanley.com/ideas/inv estment-banking-deals-outlook-2020

 

 

 

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